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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Textualidades Vivas


Textualidades Vivas


Volatilidade nas Textualidades Vivas!? Não. Para se encontrar um bom livro, é preciso escolher, e escolher.
Hoje apresentamos o poeta Nuno Moura. O livro, Nova Asmática Portuguesa, é um raríssimo livro de poesia.
Quanto às lides poéticas de Nuno Moura, sabemo que aos 22 anos editou o seu primeiro livro, estávamos em 1992. E o autor lançou aos escaparates 1500 livros. Uma loucura!

Anos depois Nuno Moura lança pela sua própria editora 500 exemplares de Nova Asmática Portuguesa. 
Marcou os anos 90, como marcou a década seguinte. Segundo o blogue As Folhas Ardem Mal, Nuno Moura é "Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Que diria que poesia pode ser perigosa, e emotiva! 

Deixamos agora um dos poema de Nova Asmática Portuguesa

Uma mulher amamenta o jornal
Do marido enquanto conta
E toma das filhas

As páginas pesam um quilo de barulho
Quando dobram entre eles.

Ela vê um campo de alfaces e o adeus
De um homem no meio.

O anúncio número dez entorta.

Antes da polémica número onze o olhar
Dela já tinha ido frear a emergência
Para lá do vidro.

Nuno Moura, Nova Asmática Portuguesa (1997)
Mariposa Azul

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Textualidades Vivas

Textualidades Vivas

Poeta, dos bons, e poeta que escreve na mesa de café, é considerado um dos últimos poetas românticos. No final deste texto vão ficar a perceber porquê. E se calhar ficaram desapontados com o romantismo, por passar a conhecer o lado desconhecido do romantismo.

Na sociedade moderna existem demasiadas coisas com que nos preocupemos, demasiada informação para assimilarmos e bastante pouco tempo livre para desfrutarmos. O poeta portuense António Pedro Ribeiro parece não querer acreditar nisso e poderá vir a ser o último poeta romântico português.

Edita com regularidade por editoras que passam despercebidas ao público em geral. António Pedro Ribeiro, é um poeta, que segue a máxima de Rui Reininho, é preciso subir ao povo. O poeta não se considera um autor exclusivamente político. Até porque, na senda de Breton, a política não existe separada da vida. O amor, o sexo, a liberdade e a revolução são todas uma coisa só que as máquinas castradoras do sistema sempre tentaram dividir. Mas, ao fim e ao cabo, felizmente nunca o conseguiram no que respeita a alguns homens e mulheres. Nietzsche fala no espírito livre e em Dionisos e eu acredito. Diz.

Afirma que já fez muitos disparates. Diz que assim evitar apodrecer de tédio ou apodrecido de tédio ou de depressão. Mesmo quando estou a brincar ou com os copos, penso que as pessoas inteligentes entendem que já escolhi o meu lado da barricada. Há quem me ame e quem me odeie. 

Sente-se um “poeta maldito”, como o eram Rimbaud, Baudelaire ou Sade? Afirma.
Mas não se coloca ao nível de Rimbaud, Baudelaire ou Sade. No entanto, tem a certeza que é deles, que vem dessa linha de malditos onde incluo também Blake, Lautreamont, Jim Morrison, Nietzsche, Henry Miller, Bob Dylan, Allen Gingsberg, Péret e tantos outros. Retorque que não nasceu para os empregos das 9 às 5 – dou-me mal neles, a rotina mata-me. Léo Ferré disse que o artista aprende a profissão no inferno. Eu vou lá muitas vezes e gosto, porque o céu, muitas vezes, é uma seca, com todos aos beijinhos, aos abracinhos, aos boatos, aos mexericos, às panelinhas e eu detesto. Serei um poeta maldito, mas isso não significa que não ame a Humanidade, as mulheres bonitas, o sol, as crianças. Esta merda que nos querem impingir é que eu não aceito. De qualquer modo, não sou, não quero ser, o versejador da corte.
Eis o busto de António Pedro Ribeiro, em carne e osso; e em poesia. Para terminar deixo-vos um poema presente o livro Saloon. Que podem conhecer ou adquirir na Vilateca Livraria Galeria.
Madalena

Para a Paula

Deste-me a morada
A meio da tempestade
Vieste por entre os duendes ao lugar a trip

Imaculada
Levaste-me do túmulo
E levaste-me pela mão de Deus
Para fora dos bares e dos artifícios do demo
Das cassetes pirateadas das notícias do templo
Beijaste-me a outra face e amaste-me.





sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Textualidades Vivas - Carlos Vinagre

Textualidades Vivas - Carlos Vinagre


Voltamos a falar de poetas. É preciso conhecer estas criaturas. São fofinhos. São agrestes. Um poeta quando escreve, tem um acto unipessoal, a empresa é a palavra, mas nunca está em défice. Esta semana, após uma ausência de algumas semanas, divulgamos um poema de Carlos Vinagre, podem adquirir o livro Ranhura, último acto poético materializado no prelo... na Vilateca Livraria Galeria. E ainda oferecemos um marcador de página. Era escusado. Voltamos a falar de poetas. Falar de um poeta tão novo em Vila Real, deve ser arriscado. E é mesmo. 

Biografia:


Carlos Vinagre: nasceu em 1988. Actualmente reside em Espinho. É membro fundador, dirigente e um dos animadores da Associação Cultural Extrapolar. Colabora também em outras colectividades como o Grupo de Intervenção Urbano. Publicou o seu primeiro livro em 2009, Moluscos de Mântua, e participou com um texto na obra Munditações, livro que reúne fotografias de Carlos Silva e textos de vários autores da península ibérica. Membro da Incomunidade, tem co-organizado e contribuído em vários filo-cafés. Publicou recentemente o livro Ranhura.


O poema que se segue, não pertence ao livro Ranhura. Fomos encontra-lo ainda com frescura no blogue do poeta, http://carlosvinagre.blogspot.pt 

Silêncio do Húmus

que doces esvaziam a pele até à penúria?

quero a penumbra do tempo, a língua que não resiste à intempérie,
a interferência da chuva pelo canal da  vida

como se a vida não acontecesse pela floresta 
e a sereia não se escondesse na vastidão das ondas
e as rosas não tapassem o orvalho, boca da cidade, 
anonimanto esbracejado,
pétala de sol, 

a noite curva-se pela melancolia das igrejas 
uma onomatopeia fende na agonia as casas

é o algodão doce da noite
aquele que embala na humidade o sonho
e derrete pelo incêndio o crespúsculo
ante a bruma pulmonar dos meus ossos
o esconderijo da flor do mar
a pele das árvores 

descasco o colestrol do meu sangue
a bruma com a língua
a penumbra dos doces
e descubro a areia coberta por lençóis de espuma
feitos com rosas 
e sementes 

como se a vida se resumisse a uma construção gramatical
alumiada pela opacidade da maresia
um campo fere-se nas mãos diante da porta da possibilidade
e o sangue transmuta-se em pétalas
pelo felino irreal
em ondas
em raios
em espamos de carvão
e doces de inverno

assim permaneço absorto no silêncio do húmus




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Textualidades Vivas


Bruno Miguel Resende discursa à TVI

 Textualidades Vivas

Depois de um interregno que devia fazer corar, voltamos a apresentar poetas do nosso tempo. Esta semana, damos relevo a Bruno Miguel Resende. Poeta intenso na obra como na existência. A foto pode iludir, mas Bruno Miguel Resende já não reside em Vila Real. Desaguou daqui. Esquivem os livros de autógrafos.

Biografia:

Chamado Bruno Miguel Resende nasce a 1 de Março de 1981, segundo o falso calendário cristão, no Porto, Portugal, Universo. Forma-se e informa-se continuamente sobre si e tudo o resto. Autor dos livros Subterfúgios, Khaos Poeticum, Esquilia Divinorum e Descravidades. É escritor, actor, desenhador gráfico, dramaturgo. Entre outras polivalências que surgem. O seu mais recente arroubo literário chama-se Falosofia. Não é porém desse livro o poema que se segue. Bruno Miguel Resende é ainda co fundador em 2010 dos Spabilados - Teatro Hedonista juntamente com Fátima Vale. Virtualiza-se em www.bmresende.tk e em www.spabilados.net. Falosofia pode ser encontrado ou encontrada à venda na Vilateca Livraria Galeria. 

a internidade equinocial

o areal distendia-se no reflexo dos pés
deixava marcas trilhadas de esquecimento
enquanto reflectia a noite no estômago do mar
por perto as estrelas pendiam a espuma

os ventos sulares eriçavam a epifania da água
quentes jorravam no estalo da equidistância
pela humidade abrasiva que transbordava para dentro
desenhando o limite das algas nas pontas dos pés

o rugido era vagaroso como a vaga que ronrona
estendia-se perante a pulverização da roupa
a nudez era muda tocada pelo aguaceiro da chama
constante como tudo o resto que o não era

o corpo ígneo correu para o líquido amniótico
encontrou a fetalidade da memória que não tinha
lembrou-se do que nunca percebera
porque nascia em dança salgada erotizada de lua

existiam gritos que não se ouviam no choque das ondas
e maternidades que não se dão quando a onda se entrega
liquefacções dos átomos que ainda não se repulsaram
estão na centelha da eternidade eternamente perdida

a noite afaga o corpo húmido na internidade de um cosmos vazo
o caos sereno faz detonar gestos arrebatados
vibram pela epiderme fecunda de quem não existe
o prazer culmina no esperma misturado de espuma salina 

o rumo inverso demonstra que o trilho não existe
que a erosão revolve pegadas para o caos
liso como o veludo celeste pintalgado de verdes que cintilam
o obscuro é alquimia da noite em dia de doses iguais

o corpo revolve para a memória e descobre que não existe
tudo o que estava permanece na mutação
mas o corpo soube que quando esteve foi deus
até que a areia lhe saísse dos pés para o esquecer

sentiste o corpo regressar ao útero mãe?

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Textualidade Vivas - Jorge Sousa Braga


Textualidades Vivas

Hoje divulgamos Jorge Sousa Braga. A temática não tem uma data ou um tempo apropriado para abordar um poeta em particular. Mas ao ter encontrado o poema abaixo transcrito, achei um bom momento para divugar o poeta Jorge Sousa Braga.

Biografia

Licenciado em Medicina, nasceu em Vila Verde, Braga em 1957. Exerce a especialidade de Obstetrícia num hospital do Porto. A sua obra poética tem vindo a revelar-se de uma criatividade notável, sendo notório desde o primeiro livro De Manhã Vamos Todos Acordar Com Uma Pérola No Cu, de 1981, uma abordagem da temática dos Descobrimentos e da portugalidade sempre tomada pelo lado irónico e surrealista, com ressonâncias do movimento Beat, de São Francisco. A sensualidade - e a sexualidade, - em poemas íntimos e por vezes extremos bem como a sua paixão pela poesia oriental têm-no levado a escrever haikus em língua portuguesa com assinalável perfeição. Incansável leitor de poesia verteu para português poemas de Jorge Luis Borges, Matsuo Bashô, Li Po, Guillaume Appolinaire, entre muitos outros. 

 "Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava
os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira
Que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
E o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
Quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera
um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do império
mas a única coisa que consegui apanhar
foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce, ainda mais doce
que os pasteis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder
nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre
nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho
Que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca

(Jorge de Sousa Braga)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Textualidade Vivas

Textualidade Vivas:

Todas as semanas nesta nova rúbrica um texto, um excerto, uma amostra de um criador, de preferência vivo, e próximo de nós.

Spabilanto – Fátima Vale
Estar vivo pode ser ilegal


"Ó século sem crença! Ó Fausto 

Que pretendes vender-te em holocausto 
Por um raio de luz!" 
extracto do poema Trevas, Gomes Leal

expor o código sináptico na noite absoluta
ermo da cegueira
onde a voz é o falo pluriforme
que instiga à formulação dos corpos
à fertilidade do fogo novo

tropeçar na fuga clandestina ao cosmos
e cair na tina lamacenta do sistema
onde se rasga a tortura do código
no escuro do abismo
na vertigem do rodopio desintegrado
o néon diz que a vida é humilhante

lavrar o betão nas ruas desertas
implorar a camisa e a força
o fruto e a semente
condenado à vida pela lei da escória
tudo punível pelo princípio da raiva
grito alienado do vadio sem abrigo

arrancar a pele no precipício do desejo
e arrastar-se envolvido pelo sol
por entre contentores de cadáveres
por entre modas estranguladoras
do impreciso
lugar incerto da inocuidade empreendedora
sólida aleatoriedade

 olimpíada do cárcere encoberto
 que serpenteia a inexistência
 lambendo o vinho que verte do cálice
 lambendo a ferida perpétua
 do sempiterno rumo
 à poeira cósmica
 ao rodopio sem fome
 na ausência quebrada da luz
 resguardo no túnel da noite
 sob o cartão do abandono
 desvio perseguido pela miséria
 catastrófica da massa obesa
 que apodrece fausta sobre a terra

o néon afirma o esmagamento do cárcere
que habita no cadafalso restante
corpo cela solitária
adormecido pelo gelo da morte
no cemitério urbano
psicopata umbilical
no telegrama de barro
da segurança social
incompatível com o sangue
coagulado na memória do futuro
sincopado dentro da ferrugem
de um cofre submerso
estar vivo pode ser ilegal

fátima vale